Cuidados com a Saúde Mental dos Maturis na Quarentena

Por Cristineide Leandro-França | 18.04.2020 | Publicado no Maiores de 60


O coronavírus tem afetado nossa forma de viver e impactado a saúde emocional da população. Embora todos estejam sendo afetados emocionalmente com esta pandemia, os maturis com idade acima de 60 anos, por estarem no grupo considerado de risco, podem sentir com mais intensidade as transformações em suas vidas com as medidas preventivas de isolamento social.


Desse modo, o cuidado com a saúde mental chama nossa atenção neste período. Sentimentos decorrentes da vivência da pandemia do coronavírus estão associados ao medo pelo risco de contaminação pessoal e de familiares, da morte, da perda de entes queridos, da escassez de alimentos, de não ter acesso à rede de cuidados médicos caso necessite, de redução financeira e do desemprego. Isso tudo gera muita ansiedade e incerteza sobre o futuro.


Assim, o período da pandemia nos faz perceber que estamos no processo de perdas em vários sentidos, materiais e emocionais, como, por exemplo, de um projeto que não ocorrerá ou será adiado, cancelamento daquela viagem para conhecer um lugar ou país que tanto se queria, uma carreira que pode não progredir, de um relacionamento amoroso que se encerrará pela intolerância na convivência conjugal, do luto ao perder um ente querido, entre outras.


Considerando este cenário de mudanças e incertezas, estima-se que as pessoas estão vivenciando algumas “fases emocionais”. Ao descrever esse período, faço uma analogia às cinco fases do luto (perdas) descritas pela psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross.


1. Fase da negação. Período inicial em uma situação de não aceitação e minimização da realidade. Alguns exemplos dessa fase são relatos como: a mídia tá exagerando, não é tanto assim como estão falando; é apenas uma gripe.


2. Fase da raiva. Nesta fase, as pessoas podem ter atitudes agressivas, revolta e irritabilidade pelas limitações impostas pela situação. A perda de autonomia ou dependência de terceiros, como, por exemplo, não poder ir ao supermercado, exercitar-se ao ar livre, encontrar colegas e familiares podem desencadear raiva e agressão. Muitas vezes esses sentimentos são direcionados ao outro por meio de discriminação etária contra idosos (memes) e étnica (contra chineses).


3. Fase da barganha. É um período em que a pessoa começa a negociar com ela mesma, ficar mais serena e reflexiva e começa a ter consciência de tudo que ocorre ao seu redor. Já não utiliza a negação ou a raiva e pensa em mudar de comportamento podendo seguir, por exemplo, as recomendações do isolamento social. É também uma fase de fazer promessas e pactos com Deus para que tudo volte ao normal, que encontrem a cura dessa doença, etc.


4. Fase da depressão. Alguns sintomas dessa fase são marcados pela angústia, melancolia, culpa, impotência, desânimo e até mesmo catastrofização (ex. o mundo vai acabar, a vida não tem mais sentido). Importante ficar atenta/o esses sinais, especialmente aos que possuem algum transtorno psíquico. Buscar ajuda profissional de um psicólogo e/ou psiquiatra é recomendado para os que se percebem nessa fase. É possível realizar consultas com esses profissionais de forma online e até mesmo gratuita.


5. Fase da aceitação. Nesta fase, a pessoa possui uma visão mais realista e aceitação da situação. Procura ter paciência e busca organizar suas atividades diárias, costuma ter uma rotina e tomar os cuidados necessários como recomendado pelos especialistas em saúde. É otimista sendo realista e aguarda a fase passar.





A vivência desses estágios não ocorre de forma linear. Desse modo, identificar em qual estágio você se encontra, qual você superou ou até mesmo não vivenciou, é o primeiro passo para atingir a fase de aceitação e consequentemente diminuir o pânico, estresse, medo e ansiedade.


Ao lidar com as emoções nesse momento da pandemia da Covid-19 é necessário considerar algumas dicas da Organização Mundial da Saúde, que poderão ser úteis aos maturis nos cuidados com a saúde mental, como:


• Filtrar a quantidade e qualidade de informações. Evite leituras permanentes sobre o tema, especialmente informações alarmantes vindas de fontes não confiáveis (Fake News). Informe-se em horários reservados, em sites e canais de órgãos oficiais ou de autoridades sanitárias de confiança.


• Use a redes sociais como aliadas. As redes sociais têm mostrado o quanto são úteis nesse período de isolamento. Muitas pessoas estão utilizando as redes para conversar com amigos e familiares, festejar aniversários, compartilhar hobbies como habilidades culinárias, artesanatos, investir no aprendizado de uma língua estrangeira, fazer uma capacitação. Cada um de acordo com suas habilidades e desejos. Entretanto, tem muito conteúdo ruim sendo exposto. As pessoas que estão na fase da raiva podem encontrar nas redes sociais um canal para proliferar o ódio, o pessimismo, a catastrofização. Aproveite esse tempo para investir em si mesmo e usar a tecnologia para se reinventar e aprender.


• Cuidados com a saúde física: Saúde física e emocional são interligadas, logo, situações de estresse, ansiedade e sofrimento psíquico podem diminuir a imunidade e nos tornar vulneráveis à contaminação. Assim, é recomendado a prática de exercícios físicos, respeitando as limitações do corpo; o uso de alimentos não industrializados, evitar o uso de bebida alcoólica e a automedicação. Atividades cognitivas são bem-vindas para exercitar o cérebro e ocupar o tempo como leituras, jogos de cartas, quebra cabeça, palavras cruzadas, jogos no celular, etc.


• Estabeleça uma rotina se estiver trabalhando de forma remota ou não. Estruture o seu dia em blocos: tempo para realizar as atividades domésticas, tempo para ficar com os filhos e pets, tempo para cozinhar, tempo para trabalhar e tempo para se conectar com amigos via videoconferência. Se arrume para trabalhar. Não levante da cama e vá direto para o seu espaço de trabalho. Cuidado para não realizar muitas atividades em um dia, sem pausas para descanso. Isso pode gerar ansiedade. Procure realizar uma atividade prazerosa como um hobby. Aproveite esse tempo para investir em novas habilidades.


• Mantenha sua fé e atividades religiosas e/ou espirituais. Independente da sua religião, é importante acreditar que isso passará. Manter a fé e a esperança auxilia no equilíbrio psíquico.


• Seja solidário com quem precisa de assistência. O ato de ajudar alguém pode proporcionar um sentimento agradável a quem cuida e a quem é cuidado. Assim, como no trabalho voluntário presencial, veja agora de forma remota o que você pode fazer pelo outro: uma ligação, uma mensagem virtual pelo whatsapp, uma chamada por vídeo, uma ajuda financeira se você tem condições para isso. Solidariedade é um sentimento que faz bem para sair desta crise.


Ainda não temos respostas para tudo que está acontecendo ao nosso redor, mas vamos aproveitar esse afastamento físico, mas não afetivo, para aprender novas formas de se autoconhecer, de se relacionar com o outro e com o mundo. Certamente, nos tornaremos mais forte com esta experiência.